Letras UFABC

18/08/2012

O medo de perder e os embalos de sábado à noite

Filed under: Geral,Vídeos — Gabriel Kernnuak Farias @ 18:13
Tags: , , ,

A seção “eventos” do Facebook indica que ainda restam nove compromissos a serem cumpridos na próxima semana – três deles no mesmo dia. Enquanto isso, a cada atualização da (famigerada) linha do tempo, surgem fotos recém tiradas de amigos em festas, notificações sobre o show de uma banda de rock na cidade ao lado e alguns outros (tantos) posts lamentando alguma espécie de solidão ou tédio indesejável para a noite de sábado. Enquanto isso você continua a explorar as redes sociais – amealhando alguma informação do meio de uma quantidade exorbitante de dados – e enfim posta: “Feliz! Tenho cinema e pipoca pra noite de hoje”, anexando a foto de dois DVDs recém comprados, quiçá numa tentativa de mostrar que está tão feliz quanto os amigos marcados nas fotos da festa.

A situação hipotética não é tão difícil de ser imaginada. Arrisco dizer, comum nos dias recentes. Desde o boom das redes sociais, iniciado em pequenas comunidades no Orkut, passando pelo streaming de muitos fatos e poucas palavras do Twitter até a explosão da linha do tempo multimídia do Facebook, abriu-se espaço para diversas formas de compartilhamento na internet. Desde o caderno de economia de uma publicação européia até imagens de si mesmo num bar na Vila Madalena, nada é tão pessoal que não possa ser público. O fluxo intenso de informações, contudo, foi o que bastou para alimentar aquilo que tende a ser um dos males do século XXI: F.O.M.O.

O Fear Of Missing Out, embora não seja uma sensação desconhecida ao ser humano, é um problema emblemático da era digital. Consiste, literalmente, no “medo de estar por fora” ou no receio de perder aquilo que há de melhor, intensificado quando há a percepção de que, a opção por passar um fim de semana sozinho, seja lendo Guerra e Paz ou assistindo ao último filme do Woody Allen, implica na recusa àquela festa com os amigos ou ao show da sua banda preferida que ocorre numa cidade vizinha. Segundo o médico Ricardo de Oliveira, coordenador de neurociências do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (em entrevista à Você s/a), a denominação recente só remonta um antigo problema. “Quem nunca lamentou não fazer parte de determinado grupo?”, perguntou o neurologista e neuropsiquiatra.

O F.O.M.O remete a um misto de irritabilidade, ansiedade e sensação de deslocamento de um determinado grupo e deve-se em grande parte à falta de maturidade na relação ente usuário e redes sociais, elementos consideravelmente recentes no contexto das relações humanas. À medida que os próprios sites estimulam o compartilhamento de informações (na homepage da antiga versão do Twitter encontrava-se um quase invasivo “what are you doing?”, posteriormeste substituído por um estimulante e abrangente “what’s happening?” – no Facebook a pergunta diz respeito ao que você está pensando), cabe ao usuário ter critério quanto aos seus objetos de compartilhamento, bem como fazer uma seleção clara daquilo que é informação relevante e o que não é.

Ainda que exposição àquilo que os outros está fazendo seja inevitável, a consciência dessa realidade é um passo para evitar o Fear Of Missing Out e problemas adjacentes. Não, você não é o John Travolta e os embalos do sábado à noite não são só seus. De todo modo, o vídeo da JWTIntelligence ajuda a elucidar estatisticamente a raiz desse problema.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: